A história de Maria Tibúrcio em quase quatro décadas servindo na Polícia Militar do Acre
“Eu só queria trabalhar, criar meus filhos e dar a eles a oportunidade de estudar e construir suas próprias vidas. Foi isso que procurei fazer”.
Aos 68 anos, Maria Tibúrcio da Rocha resume, nessas palavras, o que norteou grande parte de sua vida. Quando chegou à Polícia Militar do Acre (PMAC), em março de 1987, precisava mais do que um emprego. Mãe de cinco filhos, enfrentava dificuldades para colocar comida à mesa e buscava garantir o sustento da família. Não imaginava que aquela oportunidade, surgida em um dos períodos mais difíceis de sua trajetória, se tornaria uma história de quase quatro décadas de trabalho, vínculos e pertencimento.

Nascida na comunidade ribeirinha Jardim da Palma, às margens do rio Tejo, a cerca de 12 horas de barco acima de Marechal Thaumaturgo, no interior do Acre, Maria cresceu trabalhando na roça com a família. Casou-se aos 17 anos e teve o primeiro filho aos 19. Por volta dos 28 anos, após ser abandonada pelo pai das crianças, mudou-se para Porto Walter, no Vale do Juruá, onde passou a trabalhar como empregada doméstica.
Sem emprego fixo ou vínculo formal, morava de aluguel e enfrentava dias em que faltava comida para ela e os filhos. Reservada, guardava as preocupações para si enquanto tentava encontrar uma saída. Foi nesse período de incertezas, cerca de um ano depois de deixar sua comunidade natal, que uma oportunidade mudou o rumo de sua história.
Novos caminhos
Já morando em Cruzeiro do Sul, para ficar mais perto dos familiares, participou de uma reunião de mulheres, onde conheceu uma servidora civil da Polícia Militar que lhe falou sobre a possibilidade de ingressar no serviço público estadual. Três meses depois, recebeu o convite para trabalhar na instituição.
Em março de 1987, começou a trabalhar na PMAC, em Cruzeiro do Sul, quando o ingresso de servidores civis ainda ocorria sem concursos públicos nos moldes atuais. Passou pelo almoxarifado, pela cozinha e pelo refeitório. Sua efetivação como servidora civil ocorreu somente em junho de 1988. Até lá, conviveu com a insegurança de não ter um salário fixo, justamente quando mais precisava sustentar os filhos.
As dificuldades de Maria não passaram despercebidas pelos policiais militares com quem convivia. Sensibilizados, eles se organizavam para arrecadar dinheiro e alimentos, ajudando a levar comida para sua casa. Mais do que auxílio material, ela encontrou naqueles colegas incentivo nos momentos em que pensou em deixar o emprego recém-conquistado.
A lembrança daquela fase permanece viva quase quatro décadas depois. A ajuda recebida não foi apenas uma resposta à necessidade imediata, mas o início de relações que a marcaram profundamente.
“A Polícia Militar me acolheu. Foi aqui que encontrei uma oportunidade quando minha vida era muito difícil e eu não sabia o que fazer”, recorda.

A instituição, que inicialmente representava a chance de garantir o sustento da família, tornou-se parte de sua história. Foi ali que encontrou condições para criar os filhos, conquistar independência financeira e estabelecer relações de confiança que permaneceram ao longo dos anos.
Uma história que atravessou gerações
Maria permaneceu por 20 anos em Cruzeiro do Sul, onde trabalhou principalmente na cozinha e, posteriormente, na área administrativa. Há 18 anos, mudou-se para Rio Branco para ficar mais perto dos filhos e passou a exercer suas funções no Quartel do Comando Geral da PMAC, onde permanece até hoje.
Nesse período, acompanhou mudanças na estrutura e na rotina da corporação, conheceu diferentes gerações de policiais e testemunhou transformações na maneira como a instituição se organiza e se relaciona com seus profissionais. Ao longo da carreira, conviveu com 19 comandantes-gerais, dez deles durante o período em que trabalhou na capital.
“Eu vi muita coisa mudar nesses anos todos, sempre para melhor. Até mesmo o tratamento que eles [os militares] tinham com a gente. Apesar de sempre terem tido respeito, hoje existe muito mais cordialidade e carinho, até”, observa.
Com poucos anos de estudo formal, Maria aprendeu no cotidiano, assumiu diferentes responsabilidades e conquistou o respeito dos colegas. Sua experiência profissional foi construída na prática, entre tarefas diversas e o compromisso de fazer bem aquilo que lhe cabia.
O tempo também lhe trouxe amizades que ultrapassaram os limites do ambiente de trabalho. Mesmo com os filhos seguindo suas próprias vidas e a rotina se tornando mais solitária em alguns momentos, encontrou na convivência com os colegas uma importante fonte de afeto e companhia.

A família, no entanto, sempre foi sua principal motivação. Dos cinco filhos, dois morreram ainda pequenos, uma perda dolorosa que a marcou profundamente. Os outros três cresceram e seguiram seus próprios caminhos. Todos concluíram o ensino superior, sendo que um deles conquistou mais de uma graduação.
Para Maria, acompanhar o crescimento dos filhos e saber que tiveram a oportunidade de construir suas vidas representa uma de suas maiores realizações. É também uma resposta aos anos em que enfrentou dificuldades para garantir a eles aquilo que sempre considerou essencial: a possibilidade de estudar e conquistar o próprio futuro.
O reconhecimento de uma trajetória
A história de Maria também ajuda a contar uma parte quase invisível da Polícia Militar do Acre. Os primeiros servidores civis ingressaram na instituição em 1976, passando a integrar uma engrenagem formada por profissionais de diferentes áreas, vitais para o desempenho da missão institucional da PMAC.
Atualmente, a instituição conta com 47 servidores civis em todo o estado, além de seis gestores e cinco servidores comissionados, totalizando 58 pessoas. Embora não estejam diretamente envolvidos no policiamento ostensivo, esses profissionais atuam em diferentes setores e contribuem para o funcionamento orgânico da corporação.
Para a comandante-geral da PMAC, coronel Marta Renata da Silva Freitas, reconhecer esses profissionais significa valorizar o serviço público e as pessoas que se dedicam a ele por muitos anos de suas vidas.

“A dona Maria representa tantos servidores que, mesmo atuando nos bastidores, se doaram à Polícia Militar. Sua história nos emociona porque fala de perseverança, mas também nos lembra da importância de estender a mão a quem precisa. Ela encontrou aqui uma oportunidade para cuidar da família e, ao longo dos anos, construiu vínculos que também passaram a fazer parte de sua vida. Reconhecer isso é valorizar a pessoa por trás da função e a contribuição de cada servidor para a nossa polícia”, destaca a comandante-geral.
O reconhecimento ocorre em um momento especial para Maria, que se prepara para a aposentadoria. A proximidade do encerramento dessa etapa reúne sentimentos distintos: a tranquilidade de concluir uma longa jornada e a saudade antecipada de uma rotina que ocupou quase quatro décadas de sua vida.
Deixar o ambiente de trabalho significa se despedir da convivência diária, dos hábitos construídos ao longo dos anos e das pessoas com quem compartilhou tantas histórias. É também a oportunidade de olhar para trás e compreender o significado de suas conquistas.
Quando chegou à Polícia Militar, Maria buscava alimentar os filhos e oferecer a eles melhores condições de vida. Agora, perto de encerrar esse ciclo, reconhece que o trabalho lhe proporcionou muito mais do que esperava: independência, amizades e um lugar ao qual aprendeu a pertencer.
“Eu amo trabalhar com vocês. A Polícia Militar faz parte da minha vida, e muitas das pessoas que conheci aqui se tornaram também minha família”, concluiu.
